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O que está acontecendo em Santa Catarina?

Santa Catarina sempre foi uma terra de gente trabalhadora, acolhedora e sonhadora. Um estado construído pelo esforço coletivo, pela solidariedade e pela convivência entre diferentes culturas. Italianos, alemães, açorianos, poloneses, gaúchos, paranaenses, nordestinos — todos contribuíram para fazer daqui um dos lugares mais prósperos do Brasil. Nossa força sempre esteve na mistura, no respeito e na capacidade de transformar diferenças em progresso.

Hoje, porém, parece que estamos vivendo um estranho descolamento da realidade — uma espécie de hipnose coletiva. De um lado, números que enchem os olhos: economia em crescimento, desemprego em baixa, aumento populacional, investimentos chegando, valorização imobiliária e destaque nacional em qualidade de vida. De outro, um comportamento social que assusta: intolerância, preconceito, idolatria política e um sentimento de rejeição a tudo o que é “de fora”.

É uma contradição dolorosa. Um estado que prospera justamente por ser aberto ao novo, agora se fecha em bolhas ideológicas e discursos de ódio. Pessoas que se orgulham das raízes europeias, mas esquecem que os próprios antepassados foram imigrantes fugindo da pobreza, da guerra e da perseguição. Gente que se diz “trabalhadora e de bem”, mas espalha preconceito, racismo e desprezo pelo diferente.

O caso recente da Miss Santa Catarina, Pietra Travassos, escancara esse paradoxo. Uma jovem de apenas 18 anos, negra, de Siderópolis, que venceu com mérito e elegância, foi alvo de ataques racistas nas redes sociais. Pietra, em vez de se calar, escolheu usar sua voz para inspirar meninas negras e mostrar que o preconceito não pode definir ninguém. Enquanto isso, parte da sociedade parece anestesiada, incapaz de perceber a gravidade dessa violência.

E no campo político, a incoerência segue firme: cresce a idolatria à família Bolsonaro, que nada fez de concreto por Santa Catarina, e mais absurdo ainda é ver Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, liderando pesquisas ao Senado em um estado que sempre valorizou suas próprias lideranças. É como se estivéssemos vivendo um transe coletivo — uma fuga da razão, uma perda de senso crítico.

Essa “hipnose” social nos faz perder o essencial: nossa identidade. O verdadeiro catarinense sempre foi o que estende a mão, o que acredita no trabalho, o que acolhe. O que não mede as pessoas pela cor da pele, pela origem ou pelo sotaque, mas pelo caráter.

Santa Catarina cresceu quando soube ser plural. Quando foi terra de oportunidades, não de exclusões. Agora, mais do que nunca, é hora de acordar.

Porque esse estado não é — e nunca foi — feito de ódio, fanatismo ou preconceito. É feito de gente.
De gente que trabalha, que sonha, que acolhe e que constrói.
E talvez o que esteja acontecendo em Santa Catarina seja justamente isso: estamos esquecendo quem realmente somos.

Written by Redação

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