Passado mais de um ano da atual gestão municipal em Balneário Camboriú, já é possível fazer algumas leituras sobre o governo. Como em qualquer administração pública, existem acertos e erros — algo natural em qualquer processo político e administrativo.
A atual chefe do Executivo conseguiu, durante a campanha e também no início do governo, reunir diversas lideranças políticas em torno de um discurso voltado à atenção aos bairros e à integração com a cidade vizinha de Camboriú. Essa aproximação também ganhou força com a presença de seu pai, que foi candidato na época e hoje ocupa o cargo de prefeito na cidade vizinha.
As duas cidades, apesar da divisão territorial, possuem uma ligação histórica, social e econômica muito forte — quase como se fossem uma única cidade. Diariamente, milhares de pessoas vivem essa integração na prática, trabalhando em um município e morando no outro.
Até o momento, porém, poucos projetos estruturantes realmente avançaram em conjunto entre as duas administrações. Um dos temas em discussão é o projeto do parque inundável, pensado como alternativa para amenizar os problemas hídricos da região, historicamente afetada por enchentes e drenagem insuficiente. Ainda assim, a população espera mais iniciativas integradas entre os municípios.
Um exemplo frequentemente citado é a criação de um sistema de transporte público eficiente ligando diretamente as duas cidades. A expectativa de parte do eleitorado era justamente essa: políticas públicas pensadas de forma regional, que reconhecessem a interdependência entre os dois municípios.
Quando se observa a composição do governo municipal, no entanto, percebe-se uma grande mistura de grupos políticos. Há nomes que já passaram por diferentes administrações locais, como as gestões de Leonel Pavan, Edson Piriquito e até mesmo do último governo de Fabrício Oliveira. Na prática, formou-se uma verdadeira “salada mista” política, onde muitas vezes é difícil perceber uma linha clara de coesão entre os grupos.
E é justamente aí que surge uma reflexão importante: quantos estão no governo por convicção e quantos estão apenas por conveniência?
Não é segredo que parte da política ainda vive do chamado fisiologismo. Existem figuras conhecidas que atravessam diferentes governos, adaptando discursos e posicionamentos para permanecer no poder. São profissionais da política que mudam de lado conforme o vento, mas continuam ocupando espaços.
O problema é simples: quem está em um governo apenas por conveniência raramente ajuda a remar o barco. Muitas vezes permanece enquanto tudo vai bem, mas aguarda o primeiro sinal de crise para abandonar a embarcação e procurar outro projeto político. Já quem está por convicção permanece até o fim, porque acredita no projeto, na liderança e no propósito da gestão.
Aliás, o poder é algo que consome. Muitos acabam perdendo o chamado “cheiro do povo”, que é justamente quem elege os políticos. Em tempos de redes sociais, alguns acabam presos à lógica da produção constante de conteúdo, transformando-se mais em influenciadores digitais do que em gestores públicos.
Outro fator que frequentemente ilude políticos são as pesquisas. Na última eleição municipal, por exemplo, Fabrício Oliveira interpretou de forma equivocada uma pesquisa que apontava alta aprovação de seu governo. A leitura equivocada pode levar ao excesso de confiança, fazendo com que o político acredite ser maior que o próprio projeto ou que o grupo que o sustenta.
O político não pode perder o contato com a realidade da população. Quando o poder sobe à cabeça, perde-se o pé no chão. Muitos dos nomes que hoje ocupam espaços na administração são velhos conhecidos da política local, com passagens por diferentes governos. Em muitos casos, não estão ali por acreditar no projeto ou na liderança, mas pela conveniência de continuar ocupando espaço.
Por isso, toda liderança precisa cercar-se de pessoas convictas — gente que realmente queira transformar a cidade, contribuir com a gestão pública e fazer a diferença. Caso contrário, o risco é que o governo se torne apenas mais um capítulo da repetição política local, onde interesses pessoais falam mais alto do que o interesse coletivo.


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